sexta-feira, maio 05, 2006

As lições de Garotinho

Se se confirma a suspenção da greve de fome de Garotinho hoje, conforme se anuncia, algumas lições amargas serão tiradas pelo candidato.
A primeira delas é de que ela foi precipitada. Estranhamente, o gesto do ex-governador não condiz com seu curriculo acostumado a confrontos e acusações. Sua trajetória é de rompimentos e mudanças de sigla que, mais ou menos, o manteve no cenário político nacional até hoje.
A segunda é de que definitivamente ele comprometeu sua candidatura. O gesto radical, de defesa da honra, não veio acompanhado de esclarecimentos convincentes de seus laços com financiamento político viciado. A tentativa de comprometer internacionalmente o processo político brasileiro foi um tiro no pé.
E a última lição amarga é de que não se enfrenta a mídia sem munição adequada. Faltou inteligência quando escolheu a grande mídia como alvo de seu protesto. Porque nem a pequena mídia ficou do seu lado. Pelo contrário, seu gesto foi caricaturado, achincalhado - até de forma exagerada - e ninguém saiu em sua defesa.
O estilo populista que sempre adotou como instrumento de adesão emocional do mundo evangélico e de segmentos populares assistidos por suas gestões, não causou nenhum movimento social em sua defesa.
Para quem aspira a Presidência da República, Garotinho passou uma imagem de "garotinho" emburrado, intempestivo, e sem equilíbrio emocional suficiente para administrar as tensões do jogo do Poder.
Penso que estas lições terão forte impacto na vida política dele. Pois percebeu que mesmo seus mais próximos correligionários compreenderam a radicalidade insustentável de um gesto extremo, individual.
Melhor teria sido, ao invés de fazer uma greve de fome, tentar "comer a sopa pelas beiras", no melhor estilo de um outro personagem antigo aliado seu e depois desafeto: o ex-governador Leonel Brizolla.
A magreza decorrente da greve significará também um emagrecimento político de sua imagem.

terça-feira, maio 02, 2006

Lula X Morales: um teste da Política Externa brasileira

A estatização dos recursos naturais na Bolivia era uma crônica anunciada desde que Evo Morales conquistou a Presidência através de uma acachapante vitória. A questão era quando ele iria agir. Eleito sobre uma pauta de reivindicações nacionalistas de uma nação marcada pela expropriação de seus recursos naturais, sem nenhuma contrapartida social, responsável pelos maiores índices de pobreza da América do Sul, Morales precisava de um gesto público de soberania.
Sobrou para a Petrobrás. E para o Governo Lula. O desfecho desse incidente não será imediato. Para muitos que esperavam medidas retaliatórias do Governo brasileiro o episódio promete ser longo e amplamente negociado. Lula não optará pelo confronto, pois sabe que esse é um campo minado.
Ao invés, buscará construir uma saída política conjugada com outros aliados no continente. Afinal, Morales precisa do apoio de aliados políticos como Chavez, Kirchner e o próprio Lula, de quem recebeu efusivo apoio.Nenhuma ação unilateral tem força suficiente para prosperar, porque a realidade do continente hoje não permite que os governos mais próximos ideologicamente prescindam de retaguarda geopolítica. Mesmo com diferenças, esses governos precisam criar um pacto estratégico sem o que a esquerda no continente não avançará.
A grande questão para Lula é como essa negociação vai terminar. O decreto de expropriação estabelece um prazo de 180 dias para a efetiva definição do "fica" ou do "vai embora". Enquanto isso a palavra é negociar, pois Lula sabe que o ato do Governo boliviano é um ato de soberania, mesmo questionada a sua pertinência econômica.
Ganhar tempo parece ser a especialidade do Presidente. Só que poderá ser acusado pelos setores empresariais brasileiros de não tratar com a veemência necessária os interesses econômicos do Brasil. Isso pode se tornar um tema incômodo de campanha. Se Lula não conseguir o apoio de outras lideranças no continente para a alteração do decreto, mesmo que em bases gradualistas, com certeza tratará de convencer a Petrobrás a bater em retirada. Ou então poderá optar por uma mediação jurídica internacional. Eis aí o grande teste da diplomacia do Governo Lula. Vamos ver como se desenrola essa trama.